Grão nascerá com ferrugem

Publicado em 20 de agosto de 2012

A safra 2012/13 de soja, em Mato Grosso, que começa a ser cultivada a menos de 30 dias, corre sérios riscos de nascer com a ferrugem asiática em função do grande volume de plantas guaxas (involuntárias) que foram encontradas em todas as regiões produtoras do Estado e praticamente 100% delas infestadas com o fungo da doença. O alerta vem dos técnicos da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja) e da Superintendência Regional do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) que estiveram realizando a última rodada de avaliação do Vazio Sanitário 2012, na semana passada.

De maneira unânime, o momento que antecede a semeadura da nova safra brasileira, que sempre começa por Mato Grosso, é avaliado como o mais grave de todos os tempos no Estado pelo alto nível de fungos viáveis, ou seja, prontos para infestar as lavouras. O Vazio Sanitário proíbe por 90 dias – de 15 de junho a 15 de setembro – o cultivo de soja durante a entressafra como forma de eliminar a chamada “ponte verde”, que mantém vivos de uma safra para outra os fungos da doença, o Phakopsora pachyrhizi. Após o dia 15 de setembro, o plantio está liberado.

“Tão logo caiam as primeiras chuvas, todo esse fungo vai se instalar sobre a nova soja que será plantada pelo produtor. O momento é caótico, crítico, sério e preocupante”, alerta o gerente técnico da Aprosoja/MT, Luiz Nery Ribas. O coordenador da Comissão de Defesa Vegetal da Superintendência Federal da Agricultura (SFA), em Mato Grosso, Wanderlei Dias Guerra, é mais incisivo e diz que neste momento, cabe “reza e oração ao produtor que deve colocar a mão na massa, arrancar a soja guaxa, esteja ela viva ou seca, enterrar ou colocar em sacos plásticos e torcer para que o saco não rasgue, rompa, colocando esses esporos de volta ao ambiente”. A doença age no cerne da produção: afeta a produtividade, amplia custos e corrói a rentabilidade do sojicultor.

Conforme Dias Guerra, as regiões consideradas as mais críticas do Estado são: Dom Aquino, Campo Verde, Primavera do Leste e o sul de Nova Mutum. Como explicam Guerra e Ribas, a soja guaxa foi encontrada no perímetro urbano, mas margens de rodovias e em área próximas às lavouras, dentro das fazendas.

“O fungo é o biotrópico, ou seja, precisa de planta viva para se multiplicar e é resistente ao clima. Mesmo com a folha seca e em um ambiente sem chuvas – como de meados de junho pra cá – testes realizados na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) mostraram que ele se manteve viável por 28 dias, em outras palavras, ativo por quatro semanas e por isso fazemos esse alerta sobre a gravidade do que poderá vir a ser este início de safra”. Como completa Guerra, as análises feitas pela UFMT mostram que a planta morre, mas o fungo fica.

A ameaça da ferrugem, doença que trouxe muitos prejuízos na safra passada (2011/12), surge como uma espécie de balde de água fria sobre os ânimos dos sojicultores mato-grossenses que estão diante de uma temporada de inúmeras perspectivas positivas – de preços, mercado e demanda – e que não admitirá erros. Analistas frisam que o mundo vai precisar de uma safra cheia na América do Sul como forma de amenizar uma temporada sul-americana ruim em 2011/12 e da atual seca nos Estados Unidos que deixará de ofertar ao mundo cerca de 11 milhões de toneladas.

Esta safra, antes de começar, tem o maior custo de plantio já apurado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Rompe a casa dos R$ 2 mil por hectare, 28% acima da média estadual para 2011/12.

CONTRA O TEMPO – Questionados em relação a proliferação das plantas guaxas, os técnicos explicam que pode ter havido algum descuido do produtor no entorno da propriedade, mas o fato é que o clima em 2012 foi excelente ao desenvolvimento da planta guaxa porque houve chuvas até junho o que favoreceu os grãos que se perderam durante a colheita, transporte próximo à fazenda e às margens das rodovias. Todas as margens de rodovias estão com soja guaxa e todas as folhas estão com o fungo. “A menos de 30 dias do início do plantio, resta como último recurso um mutirão nas fazendas para arrancar essa soja do solo e descartá-la dentro de sacos plásticos ou enterrar, uma alternativa para tentar minimizar a incidência anunciada”.

PERDAS – A Aprosoja/MT estima que na última safra os prejuízos contabilizados nas lavouras de soja em decorrência da ferrugem asiática tenham atingido cerca de R$ 1 bilhão, cifras relativas as quase 800 mil toneladas que deixaram de ser colhidas no ciclo 2011/12, quando se esperavam 22 milhões e foram extraídas 21,36 milhões de toneladas. Em dez anos, a doença sugou da economia cerca de US$ 19,7 bilhões, dos quais US$ 8 bilhões, em Mato Grosso.

Fonte: Diário de Cuiabá // Marianna Peres


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