Seca ‘salva’ a lavoura

Publicado em 9 de julho de 2012

Há cerca de um mês, a supersafra de milho, em Mato Grosso, passava a ser um assunto indigesto para o produtor que via dia após dia a pressão da oferta – com o início da colheita – sucumbir as cotações, ao ponto de chegar a algumas praças do norte e médio norte mato-grossenses, abaixo do custo de produção, cerca de R$ 13. No entanto, praticamente do dia para noite, a confirmação de que a seca vem prejudicando as lavouras de soja e milho dos Estados Unidos, maior produtor mundial das duas culturas, foi suficiente para modificar completamente o cenário. Com perspectiva de escassez, o produtor voltou a dar as cartas ao mercado.

De acordo com analistas, as adversidades do clima nos Estados Unidos podem ser benéficas nas cotações, principalmente neste mês de julho, atuando para o incremento do preço no mercado de Mato Grosso. No entanto ainda é difícil prever um limite de preços, mas é certa a valorização e ela poderá elevar as cotações do cereal a níveis já vistos há alguns meses de até R$ 19. Tudo vai depender do apetite dos mercados interno e externo e do comportamento do dólar.

“Há um mês eu corria atrás de comprador para o meu milho e ninguém me atendia. Da metade da semana passada pra cá eles é que correm atrás de mim e sou eu quem não quer saber de negócio. O cenário se inverteu e agora o produtor pode dar as cartas e esperar por bons momentos”, explica o produtor de Nova Mutum e vice-presidente norte da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja/MT), Naildo Lopes. Essa inversão é o que os analistas chamam de mercado de clima, momento em que o mundo se volta para o desenvolvimento das lavouras norte-americanas. Ao menor sinal de adversidade ou de bonança, a reação de preços no mercado se torna instantânea.

Até o ano passado, o mercado de clima era vigiado de perto pelo sojicultor – especialmente pelo mato-grossense, que é o primeiro do Brasil a plantar – que esperava por notícias ruins para ver o mercado reagir positivamente para travar soja com preço mais remunerador. Com o milho mais commodity do que nunca, Mato Grosso pela primeira vez vive o mercado de clima para o cereal e essa estreia chegou em um momento em que a cotação do grão declinava.

Como define Lopes, a seca no hemisfério norte de fato será a salvação da segunda safra de milho no Estado. De um volume recorde de 13,11 milhões de toneladas na safra 2012, cerca de 56% foi comercializado de forma antecipada. “Sendo assim, existem mais de 5 milhões de toneladas a serem comercializadas em um momento em que o preço de mercado e o de custo para saca ficam muito próximos. Com a possibilidade de quebra nos Estados Unidos, o mercado se abre para o milho mato-grossense, especialmente para exportação. Isso aliado à valorização do dólar pode trazer o preço da saca a patamares bem remuneradores”.

Como forma de resumir o momento atual e o passado recente, Lopes brinca: “Se a reportagem do Diário tivesse me ligado há semanas, para falar de milho, eu pediria para mudar de assunto, tamanha era o meu pessimismo!”. Neste curto espaço de tempo, “passamos de cerca de R$ 13/saca para R$ 16,80/saca. Este último me foi ofertado por uma multinacional e eu recusei”. Questionado sobre o risco de segurar a produção que ainda está para ser colhida, Lopes frisa que o momento é favorável ao produtor e que cada um deve fazer as contas e saber o valor mínimo que pode aceitar pela produção. “Daqui pra frente é fixar olhos no mercado de clima e ir vendendo aos poucos para aproveitar o efeito clima que pela primeira vez traz milho a reboque da soja”.

NOS EUA – Para analistas, a quebra de safra se aproxima. Conforme informações do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e da Safras e Mercados, o clima seco e quente vem marcando a safra 2012/13 dos Estados Unidos e já dá indícios de quebra de parte da produção, que até o momento pode ser grandiosa. No entanto, a cada dia que passa com clima adverso a ameaça de não conseguir suprir o estoque mundial é mais evidente e é justamente essa perspectiva que vem movimentando o mercado.

As condições relatadas pelo Departamento de Agricultura norte-americano (Usda), comparando o primeiro e o último relatórios do desenvolvimento de lavoura, indicam uma redução das áreas boas a excelentes de 65% para 35%. Ou seja: no momento, apenas 1/3 da área tem condição de favorecer grandes produções.

No caso da cultura da soja, a situação é reversível assim que voltar a chover. Já para o milho, a sensibilidade para a ausência de umidade é muito maior e irreversível, condição do cereal que pode apoiar a manutenção das cotações elevadas das commodities.

Fonte: Diário de Cuiabá // Marianna Peres


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